quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Versos sobre a tristeza

A tristeza se encerra na lembrança de uma viagem para Buenos Aires, com passagem pelo cemitério da Recoleta. Encerra-se num abraço na paisagem.

A tristeza não pode durar muito. Basta a boa lembrança. Porque no fim, eu garanto, tudo vai dar certo. Senão hoje, com certeza amanhã.

A tristeza veio parar aqui em forma de poesia, com uma imagem de um cemitério. Mas esse não é um espaço religioso, nem poético.

A tristeza só existe para haver a felicidade.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

A foto explicada por Weber

Eu não usei essas coisas que estão na foto. Há uns anos, botei essa mesma imagem no orkut, e vieram falar comigo que eu estava me assumindo demais. Estava me expondo, como gostam de dizer por aí. Oká, oká, você acha que vai chover?

Haja paciência para quem chega para a gente e diz que estamos nos expondo demais por conta de uma foto que pode compreender vários significados. A pergunta que se deve fazer é: apologia ou crítica? Qual das duas opções me fez juntar todas essas drogas numa carteira de uma faculdade federal em Maceió?

Essa foto fez um estrago lá em casa na época, há uns sete, oito anos. Mamãe achou que seu filhinho havia se iniciado no mundo da marginalidade. É um drogado, cochichava no telefone com minhas tias, o que devemos fazer? E o que eu deveria fazer? Só tirei uma foto, uma foto de vários significados.

Eu sou um defensor da liberação das drogas. Acho que seria uma solução para o estado combater a criminalidade, apesar do inevitável crescimento que seria imposto para a rede pública de saúde. Nada é fácil, alguma coisa a gente tem que pagar para conseguir outra. Diminuição do crime pelo aumento das filas no SUS? Vambora, tô dentro.

Mas talvez eu diga isso apenas porque não tenha que enfrentar a fila do SUS semanalmente. E talvez porque eu não tenha consciência do que todos esses produtos da foto juntos possam causar. Mamãe não acredita em mim, mas eu só tirei a foto.

E recuso completamente a acusação de que, tirando essa foto, estou ajudando a financiar o tráfico. Mesmo que eu tivesse comprado alguma dessas coisas - não usei, tampouco comprei - recusaria a alcunha de financiador do tráfico. Quem financia o tráfico é a sociedade que oprime a maioria de seus membros. O cara precisa comer e vai roubar para comer. Mas, como diz a música, a gente não quer só comida. Diversão, arte, tênis Nike, videogame e viagem para a Disney no fim do ano deveriam ser direito de todos. Se eu posso, meu vizinho vai querer também. O que me faz melhor do que ele?

Ah, tudo bem, o meu trabalho me faz melhor do que ele. Mas eu estudei numa escola particular, a melhor do Rio, quiçá do Brasil. Por isso, e só por isso, estudei numa universidade pública. Fiz cursos, uma pós em sociologia política, me viro com idiomas. Meu sonho é chegar para um morto de fome e explicar o que é sociologia política em francês. Olha, amigo, você já ouviu falar em Weber? Oui? Non? Eu vou tomar um tiro na fuça, e o sujeito vai sair dali para vender um baseado na esquina e comprar "A ética protestante e o espírito do capitalismo". Aí ele vai entender o real sentido do trabalho para a modernidade. E minha foto poderá descansar em paz porque o mundo estará salvo.

Conversível vermelho

Quando eu me casar, eu quero chegar num conversível vermelho. Nada pode deixar um homem mais excitado do que um conversível vermelho. Se você se sentir foda, vá para seu casamento num conversível vermelho. Fale para o padre, pastor, ministro ou pai de santo. Amigo, eu quero me casar num conversível vermelho. Mas por quê, filho? Porque eu estou me sentindo foda.

Se você realmente se sentir foda, é isso que você tem que fazer. Vai lá, velho, vai lá e se imponha. Não vale se render às pressões da noiva. É preciso assumir o que se quer logo no início ou depois o futebol de quinta-feira vira programa proibido. Porque dois homens jogando futebol juntos pode ser muito arriscado, alguém vai dizer. Quero me casar num conversível vermelho, porra. Reafirme, grite. O casamento vai assumir novas possibilidades por conta do carro. A esposa vai gostar da atitude. As amigas vão morrer de inveja. Os amigos vão rir. A sogra vai se chocar.

Mas sogra é uma palavra muito pouco sonora para provocar qualquer preocupação. Experimente olhar para o espelho e repetir três vezes a palavra "sogra". Parece sobra, sombra, tromba. Agora afirme "conversível vermelho" no espelho. Projete a voz. Inspire, aspire, respire. Conversível vermelho.

Olhe para o espelho e se veja passeando com o conversível pelas ruas do Centro engarrafadas. Imagine o rum numa das mãos e o charuto na outra. Imagine ao lado o ônibus lotado com vários desfavorecidos babando pelo seu conversível vermelho. A satisfação, essa é a hora da satisfação. Eu estou me sentindo foda, eu quero me casar, eu preciso do conversível vermelho. Repita mais, dez, doze vezes.

Repita até sentir o vento na cara e ver o reflexo do sol no capô vermelho. Repita até a ficção assumir novos tons.

11 de setembro

Eu falei que gostava de tirar fotos, não? Essa eu tirei há alguns anos, numa época de guerra, mas não tão de guerra assim. Semama que vem, o 11 de setembro celebra ou lamenta, dependendo do ponto de vista, seis anos. Tudo nesse mundo, costumo acreditar, é uma questão de ponto de vista.

O que vale dizer é que daqui a alguns dias algumas pessoas vão dar um pulo ali perto, naquele lugar da foto, e vão prestar homenagens a amigos e parentes que morreram no famoso atentado terrorista. Judith Gretz, uma californiana viúva, vai jogar rosas vermelhas pelo marido. Mesmo depois de seis anos, Judith vai chorar. Vai se lembrar de como ele a abraçava por trás, segurando seus ombros com as mãos invertidas e comprimindo seus seios com doçura. Vai se lembrar que ela sorria pelo afeto. E vai olhar para o lado e observar várias mulheres, homens e crianças na mesma situação.

E daí? Judith, então, vai conhecer Bernard Pauline. Ele, também viúvo, terá acendido uma vela para sua esposa. Será uma vela usada. Há cinco, quatro, três, dois e um ano. A vela ficará acesa por apenas cinco minutos e Bernard a apagará, para que ela dure quantos anos mais for necessário. Que ela dure para seu filho e netos. Que ela dure pelo tempo de sua saudade.

Mas as rosas vermelhas de Judith vão se encontrar com a chama da vela de Bernard. Judith e Bernard vão sorrir lamentos. Vão chorar, se abraçar e orar pelo morto do outro. E vão se casar. Vão ser felizes. Vão continuar jogando rosas e acendendo a mesma vela. Mas nunca viajarão de avião. Isso, eu sei, não é uma questão de ponto de vista.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Apresentação

Eu já tive alguns blogs, mas os abandonei por motivos variados que não cabe explica-los isoladamente.

Cabe explicar que eu sempre começo blogs por razões que me fogem ao controle e que meus primeiros posts usualmente são enfadonhos demais. Citar músicas tristes e relembrar o passado são apenas alguns exemplos do que quero dizer. Depois, costumo criar histórias em que tento dar um toque de ironia à vida, mas quase nunca dá certo. Não por culpa da vida, irônica como ela só, mas por minha culpa. Então, como última tentativa de salvar o blog, convido amigos para compartilhar o espaço. O inevitável é que eles ou elas acabam se mostrando mais talentosos e responsáveis do que eu para manter o blog, o que me obriga a... desistir. Talvez eu seja um dos poucos sujeitos que eu conheça para quem a desistência esteja mais ligada à companhia do que à solidão.

Mas já me disseram que crio blogs para me expressar por palavras escritas, o que faço melhor do que por palavras ditas. Nunca fiz análise, talvez seja importante explicar.

De tudo isso, o que mais gosto em manter blogs é praticar um texto diferente do que o exigido pela minha profissão. Sabem o jornalismo? Sabem aquelas coisas de lide, sublide, quem, quê, quando? Pois bem, essas coisas podem ficar um tantinho de lado num blog, bem mais do que meu estilo literário pode ser usado no jornalismo. Sim, eu tento me apegar a um estilo literário, e quem voltar aqui mais vezes vai reparar. Mas eu não sou chato na maioria das vezes.

Acho que essas duas definições já bastam para quem entrou aqui por acaso e resolveu ler umas linhas: jornalista e não chato. O resto vai aparecendo pelos posts no tal estilo literário a que eu me referi algumas linhas atrás. Ah, eu também vejo muitos filmes, leio muitos livros e ouço muitas canções. E gosto de tirar fotos.

Cabe explicar ainda que meus blogs sempre têm menções religiosas. Mas não são blogs religiosos. Eu não sou religioso.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Hallelujah

De Leonard Cohen, mais bonita na voz de Jeff Buckley, um trecho de "Hallelujah":

Well Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
she tied you to her kitchen chair
And she broke your throne and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah
Hallelujah

Bem, eu garanto, isso não é um blog religioso.