quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Conversível vermelho

Quando eu me casar, eu quero chegar num conversível vermelho. Nada pode deixar um homem mais excitado do que um conversível vermelho. Se você se sentir foda, vá para seu casamento num conversível vermelho. Fale para o padre, pastor, ministro ou pai de santo. Amigo, eu quero me casar num conversível vermelho. Mas por quê, filho? Porque eu estou me sentindo foda.

Se você realmente se sentir foda, é isso que você tem que fazer. Vai lá, velho, vai lá e se imponha. Não vale se render às pressões da noiva. É preciso assumir o que se quer logo no início ou depois o futebol de quinta-feira vira programa proibido. Porque dois homens jogando futebol juntos pode ser muito arriscado, alguém vai dizer. Quero me casar num conversível vermelho, porra. Reafirme, grite. O casamento vai assumir novas possibilidades por conta do carro. A esposa vai gostar da atitude. As amigas vão morrer de inveja. Os amigos vão rir. A sogra vai se chocar.

Mas sogra é uma palavra muito pouco sonora para provocar qualquer preocupação. Experimente olhar para o espelho e repetir três vezes a palavra "sogra". Parece sobra, sombra, tromba. Agora afirme "conversível vermelho" no espelho. Projete a voz. Inspire, aspire, respire. Conversível vermelho.

Olhe para o espelho e se veja passeando com o conversível pelas ruas do Centro engarrafadas. Imagine o rum numa das mãos e o charuto na outra. Imagine ao lado o ônibus lotado com vários desfavorecidos babando pelo seu conversível vermelho. A satisfação, essa é a hora da satisfação. Eu estou me sentindo foda, eu quero me casar, eu preciso do conversível vermelho. Repita mais, dez, doze vezes.

Repita até sentir o vento na cara e ver o reflexo do sol no capô vermelho. Repita até a ficção assumir novos tons.

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